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terça-feira, 27 de junho de 2017

A Prenda, de Cecelia Ahern - Opinião

A Prenda, de Cecelia Ahern
Presença

Todos os dias Lou Suffern, um arquitecto bem-sucedido de Dublin, travava uma batalha inglória com o relógio, na tentativa vã de responder às múltiplas solicitações profissionais, familiares e sociais. Vivia a um ritmo vertiginoso. O seu desejo de sucesso afastou-o do que era realmente importante na sua vida. E assim foram correndo os dias até àquela gelada manhã de terça-feira em que resolveu oferecer um café a Gabe, o sem-abrigo que costumava sentar-se perto da entrada do seu escritório. À medida que o Natal se aproxima e que Lou vai privando mais de perto com Gabe, a sua perspectiva do tempo vai-se alterando... Emocionante e divertida, esta narrativa onde está sempre presente o espírito de Natal, faz-nos reflectir sobre a importância do tempo e rever as prioridades na nossa própria vida.


Há uns quantos anos uma professora de literatura portuguesa disse-me que não éramos nós que escolhíamos os livros. Eles escolhiam-nos na altura certa. Podíamos até tentar ler um livro qualquer, mas se não fosse a altura certa de o ler não faria qualquer sentido para nós. Acabaríamos por desistir da sua leitura. E, na altura certa, voltaria a nós e aí sim, faria luz dentro de nós.
Aconteceu-me algumas vezes na vida. Livros que tentei ler e que não conseguia e que anos depois se revelavam uma leitura incapaz de se largar.
Esta Prenda foi algo parecido. Está na minha estante há perto de 5 ou mais anos. Emprestado por uma boa amiga. Mas não sei porquê, mesmo sendo de uma escritora que adoro, nunca era o escolhido. Foi ficando ao longo dos anos para o fim.
Até que chegou a sua vez…. E na altura certa…
A autora apresenta-nos duas histórias, uma dentro da outra. Passa-se no natal. Um jovem acabou de atirar um peru congelado à janela de uma casa de família. Foi preso. E enquanto espera pela mãe, um polícia resolve contar-lhe uma história que lhes aconteceu e que tem a certeza ninguém vai acreditar.
Somos apresentados a Lou Suffern, um arquitecto que vive para o trabalho. Tudo para ele funciona à volta do trabalho. O trabalho é a coisa mais importante da sua vida. É conhecido como o homem que está sempre lá, que se desdobra em todas as reuniões. Um ritmo vertiginoso. Mas apenas no trabalho… A família mal conhece Lou. Não passa tempo com os filhos. O mais novo mal o conhece. A mulher começa a desistir dele. Não é o homem com quem casou.
Mas Lou não se apercebe disso. Para ele a família só tem que agradecer o esforço que ele faz. É esse esforço que lhes permite ter uma boa casa, ter tudo o que precisam.
Um dia Lou repara num sem-abrigo à porta de um prédio. E sem saber bem porquê oferece-lhe um café e conversa com ele.
A partir daí Gabe é uma presença diária na vida de Lou. Ninguém sabe bem quem ele é, ou o que quer. Mas aos poucos, e à medida que se aproxima o Natal, Gabe vai tentando fazer ver a Lou que a família é o mais importante. Que o tempo não se pode comprar. Tem de ser vivido. E vivido com quem amamos.
Será que tem sucesso?
Confesso que não esperava o final. Apesar de perceber que Gabe não era uma pessoa qualquer e tinha um intuito, não esperava que terminasse assim. Confesso que teria gostado mais de outro final. Mas talvez o impacto não seria o mesmo no leitor. Talvez esse mesmo final seja o que faz compreender a “lição de vida” que este livro traz consigo.
Não decepciona quem já está habituado à escrita desta autora. É um bom livro. Cativa. As personagens são bem construídas e interessantes.
Claro que recomendo. Mas talvez não no Natal. Mas acho que se o quiserem ler o irão fazer na altura certa…
Deixo aqui um excerto do final do livro que, sem trazer nenhum spoiler, mostra um pouco da lição de vida que ensina.

“Uma coisa de grande importância pode afectar um pequeno número de pessoas. Do mesmo modo, uma coisa de pouca importância pode afectar um grande número de pessoas. Seja qual for o caso, um acontecimento – seja ele grande ou pequeno, pode afectar toda uma cadeia de pessoas. Os acasos podem unir-nos a todos. É que, não sei se estão a ver, mas somos todos feitos da mesma matéria. Quando alguma coisa acontece, desperta algo dentro de nós que nos liga a uma situação, que nos liga a outras pessoas, iluminando-nos e unindo-nos como uma fiada de luzinhas numa árvore de natal, torcidas e contorcidas mas, ainda assim, ligadas a um mesmo fio condutor. Algumas apagam-se, outras tremeluzem, outras brilham intensamente, mas estamos todos no mesmo fio.
(…)Uma lição de vida encontra o denominador comum e une-nos a todos, como elos de uma corrente. Na extremidade dessa corrente, está pendurado um relógio, e o mostrador desse relógio regista a passagem do tempo. Nós ouvimo-lo – esse som de tiquetaquear abafado que quebra qualquer silêncio – e vemo-lo, mas muitas vezes não o sentimos. Cada segundo que passa deixa a sua marca na vida de cada pessoa, e depois avança silenciosamente, desaparecendo discretamente sem fazer alarido, evaporando-se no ar como o vapor que se escapa de um pudim de natal acabadinho de sair do forno. Muitas vezes reconforta-nos e, quando o nosso tempo acaba, também nos deixa frios. O tempo é mais precioso que o ouro, mais precioso que os diamantes, mais precioso que o petróleo ou que quaisquer outros tesouros valiosos. É um tempo que não nos chega, é o tempo que provoca as guerras nos nossos corações, e por isso temos de o gastar com sensatez.
O tempo não pode ser embrulhado e decorado com fitas e deixado debaixo das árvores para a manhã de natal.

O tempo não pode ser dado. Mas pode ser partilhado.”

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Obrigada pelas Recordações, de Cecelia Ahern - Opinião

Obrigada Pelas Recordações, de Cecelia Ahern

Quando Joyce Conway acorda no hospital depois de uma queda grave, sabe que a sua vida nunca mais será a mesma. Não só perdeu o filho que carregava no ventre, como se apercebe que o seu casamento chegou a um beco sem saída. Mas estas não são as únicas consequências. Joyce simplesmente já não é a mesma pessoa. De repente disserta sobre arte e arquitectura europeias, tem hábitos alimentares completamente diferentes, fala sobre ruas parisienses onde nunca esteve… e cruza-se amiúde com um homem a quem sente que está estranhamente ligada…

Antes de começar devo dizer que gosto bastante desta autora. Apaixonei-me por ela com o P.S – Eu Amo-te e conquistou-me definitivamente com o Um Lugar Chamado Aqui. Por isso é sempre um bom motivo regressar à sua escrita.
Este livro comprei-o numa daquelas promoções que a Presença faz pelo facebook em que angariamos amigos inscritos e escolhemos livros em que só pagamos os portes de envio. Foi uma oportunidade excelente para ler algo mais da autora.
E não desiludiu…
Ao contrário dos dois livros já mencionados, e até do Para Sempre, Talvez, este livro é bastante mais leve e divertido. Capta-nos a atenção desde o primeiro minuto pela forma leve como é escrito a duas vozes. Ou seja, tanto vemos o mundo e os acontecimentos pela mão de Joyce como o vemos pela mão de Justin.
Joyce sofre uma queda grave que lhe transforma a vida por completo. No hospital recebe uma dádiva de sangue. Sangue doado por Justin, que tem pavor a agulhas mas não viu outra alternativa para captar a atenção de Sarah. Confuso? Nada disso.
A partir daqui Joyce passa a ter conhecimentos que nunca tivera. Passa a saber o ano de construção dos edifícios, o estilo arquitectónico, o tipo de pintura do quadro que vem no jornal. Curiosamente, exactamente a área de interesse de Justin, professor de arquitectura e belas-artes, além de escritor de arte. Coincidência? Talvez…
Mas quando Joyce começa a ter recordações de jantares em Paris, de uma criança loira a brincar no parque, de uma mulher, de um casamento…. Ela percebe que aqueles flashes nada mais são que recordações de outrem. E uma teoria começa a formar-se.
As personagens são fabulosas. O pai de Joyce faz-nos apaixonar por ele às primeiras linhas. A forma como fuma às escondidas e baixa a foto da falecida mulher para ela não ver… ou a maneira como rege a sua vida pelo programa que dá na televisão e as segundas-feiras no clube. Por vezes faz-nos rir com cenas como a do aeroporto ou a das filmagens do seu programa favorito.
Outra personagem hilariante é Doris, cunhada de Justin, que juntamente com Al, o marido, fazem um par engraçadíssimo.
Ou seja, um desfiar de personagens engraçadas, de situações absurdas, hilariantes e ao mesmo tempo apaixonantes. Sem dúvida um livro leve e que, no meio de tanta aventura, nos faz pensar em algo.
Já várias vezes foi discutida, e continua a ser amiúde, a questão de quanto de uma pessoa passa para a outra quando os órgãos são transplantados. Terão os órgãos “memória” do corpo que habitavam que possa influenciar o novo? Existem vários filmes romanceados em que essa questão é levantada. E o sangue? O sangue que damos a outrem?

Mas, pronto… a minha função aqui é dar-vos a minha opinião e não conjecturas sobre transfusões ou transplantações. E o que vos posso dizer é que Obrigada pelas Recordações é um excelente livro para as noites frias enroladas na manta ou à lareira, ou até no parque envoltos pelas folhas amareladas do Outono. Sempre uma boa opção.